sexta-feira, 24 de março de 2017

Nossos terrorismos particulares


Nossos terrorismos particulares!

Nos dias atuais as palavras terrorismo e terrorista ganharam espaço nas mídias do mundo inteiro.
Mas, afinal de contas, o que significam realmente esses termos? Pois bem: terrorismo, segundo os dicionários, é um ato de violência (física, emocional) contra um indivíduo ou uma comunidade. E terrorista é aquele que infunde terror. Que espalha boatos assustadores ou prediz acontecimentos amargos. Assim sendo, será que o terrorismo está distante de nós, ou, se bem analisado, poderíamos dizer que faz parte do nosso dia-a-dia mais do que imaginamos? Será que poderíamos dizer que muitos de nós, de uma forma ou de outra, espalhamos o terror? Terror quer dizer grave perturbação trazida por perigo imediato, real ou não; medo, pavor. Ameaça. Dessa forma, quando analisamos nossas atitudes diárias vamos encontrar, em muitas ocasiões, verdadeiros atos terroristas.
Quando um esposo ou namorado impõe a sua companheira grávida: Ou você faz o aborto ou abandono você! - está praticando terrorismo e induzindo ao homicídio de um ser indefeso.
Quando uma mãe diz ao filho pequeno que se ele não obedecer irá embora de casa e o deixará à própria sorte, está cometendo um ato terrorista dos mais sérios, impondo medo e pavor a uma criança que confia em seus pais.
Filhos que sabem da preocupação dos genitores e os aterrorizam com ameaças de suicídio ou de fugas que nunca se efetivam, mas infelicitam e apavoram, são terroristas domésticos agindo soltos.
Imposições e ameaças de chefes, baseadas em carências de funcionários, que dependem do emprego para sobreviver, são atos terroristas que infelicitam e matam a esperança.
Religiosos que ameaçam seus fiéis com castigos e penas eternas, inventando um Deus temível e vingativo, espalhando pânico e terror nos corações incautos, são terroristas da fé, que agem livremente.
Por tudo isso vale a pena meditar sobre esses outros terrorismos que passam despercebidos a muitos olhares. São tantos os terrores domésticos que infelicitam os seres, portas adentro dos lares, onde deveriam reinar o amor e a fraternidade. Assim sendo, não imaginemos que o terrorismo está no seio deste ou daquele povo, desta ou daquela raça, pois ele está na alma humana, independente de nacionalidade ou religião. Não imaginemos que o terrorismo está presente nos povos menos civilizados. Ele se encontra em cada coração capaz de promover o terror, seja em que nível for. O preconceito de toda ordem também é uma forma de terror, e vamos encontrá-lo em todas as esferas sociais.
Nestes dias, em que os olhares do mundo inteiro se voltam contra o terrorismo, vale meditar sobre nossos terrorismos particulares que tantas desgraças têm promovido. E vale também lembrar que as grandes guerras e os grandes atentados terroristas são alimentados por guerras e terrorismos menores aos quais não damos importância.
Pensemos nisso e comecemos, de vez por todas, uma ação efetiva pela paz. Iniciemos por baixar as armas internas da agressividade, da calúnia, da indiferença, da infidelidade, da violência, enfim. Optemos por construir um mundo de paz, pacificando os nossos lares, nosso ambiente de trabalho, nossa própria alma. Agindo dessa maneira, podemos ter a certeza de que teremos um mundo em paz, mesmo que seja apenas o nosso próprio mundo que, em última análise, seria o início de tudo.


¹ Fundador e Autor do Blog: Eduardo Campos, Técnico em Gestão Pública: Pedagogo, Esp. em Docência do Ensino Superior – PROEJA  e Educação em Saúde. Pesquisador do Grupo de Estudo e Pesquisa em Educação do Campo na Amazônia-GEPERUAZ/UFPA
² Fonte texto : R M E
³ Fonte imagem : http://www.intercambio7.com.br/sims-e-naos-para-seu-intercambio.jpg

quinta-feira, 23 de março de 2017

As feridas de infância que continuam a nos machucar na fase adulta


As  feridas de infância que continuam a nos machucar na fase adulta

Muitas correntes da psicologia afirmam que o que acontece com a gente na infância vai determinar grande parte do que seremos quando adultos. Nosso emocional e principalmente a maneira com que nos relacionamos com outras pessoas estão bastante ligados à forma como vivemos quando éramos crianças.
Da mesma forma, nossos filhos assimilam enquanto são pequenos quase tudo o que vai determinar como eles vão reagir a muitas situações depois que crescerem, principalmente as adversidades e frustrações. Lise Bourbeau, autora canadense especialista em comportamento humano, listou 5 feridas emocionais que acontecem na infância e são mais determinantes nas dificuldades de relacionamentos que os adultos podem apresentar ao longo da vida.
Claro, nada disso é uma regra, mas reflexões que podemos fazer diariamente. Veja quais são:
1) O medo de ser abandonado
As crianças têm muito medo da ausência dos pais, o que, para ela, caracteriza o abandono. No início da vida, nossos filhos ainda não conseguem separar a fantasia da realidade e não têm ainda noção de tempo, por isso algumas ausências podem significar para a criança abandono absoluto.
Conforme a criança vai crescendo, ela vai lidando com isso de forma mais tranquila e percebendo que a presença dos pais não é possível o tempo todo, mas que eles sempre voltam ao seu encontro.
Crianças que têm experiências com negligência na infância podem ter pela vida toda medo da solidão e da rejeição toda vez que não estiver perto fisicamente das pessoas que ama. Acontece que, muitas vezes, a solidão é necessária para entendermos quem somos e nem sempre as pessoas que amamos estão perto fisicamente de nós. Saber lidar com esse sentimento é importante para a vida adulta.
2) O medo de ser rejeitado
Uma das feridas mais profundas deixadas pela infância é a sensação da criança de não ter sido amada ou acolhida pelos pais ou mesmo pelos amigos na escola.
Como as crianças começam a formar sua identidade a partir da maneira como são tratadas, elas podem se convencer de que não merecem afeto e passam a não se valorizar. E como já diz o provérbio: para sermos amados, primeiro precisamos nos amar.
3) A humilhação
Ninguém gosta de ser criticado. Mas a forma como as críticas são feitas muda tudo. As crianças querem que os pais as amem e que se sintam orgulhosos dela, por isso nada mais destrutivo do que chamar seu filho de estúpido, burro, fraco ou qualquer outro termo depreciativo.
Quando nossos filhos cometem um erro, sentar, conversar e tentar corrigir é necessário, muitas vezes com firmeza. Mas dizer coisas para humilhar a criança vai transformá-la em um adulto dependente ou um adulto que precisa humilhar as outras pessoas para se sentir bem.
4) Falta de confiança
Nós costumamos fazer promessas para nossos filhos algumas vezes sem nos dar conta do quanto isso é sério para as crianças. Promessas não cumpridas geram um sentimento de desconfiança permanente que vai ser levado para outros relacionamentos, até mesmo os amorosos.
Além disso, crianças que não conseguem confiar nos pais podem se transformar em adultos controladores. Como nem tudo na vida pode ser controlado, a pessoa pode se sentir nervosa e irritada em situações do dia a dia que poderiam ser facilmente resolvidas.
5) Injustiça
Quando alguém comete uma injustiça com a gente, os sentimentos de impotência, raiva e indignação são quase inevitáveis. As crianças sentem isso principalmente quando os pais são autoritários e frios e exigem mais do que a criança consegue dar naquele momento.
Isso pode criar um sentimento de impotência e inutilidade que vai permanecer por toda a vida. Além disso, a crianças pode se tornar um adulto perfeccionista ao extremo e autoritário.


¹ Fundador e Autor do Blog: Eduardo Campos, Técnico em Gestão Pública: Pedagogo, Esp. em Docência do Ensino Superior – PROEJA  e Educação em Saúde. Pesquisador do Grupo de Estudo e Pesquisa em Educação do Campo na Amazônia-GEPERUAZ/UFPA
² Fonte texto : Lise Bourbeau, Traduzido e adaptado do site: La Mente és Maravillosa
Via: Pais e Filhos
³ Fonte imagem : http://www.intercambio7.com.br/sims-e-naos-para-seu-intercambio.jpg

quarta-feira, 22 de março de 2017

Às vezes, é preciso coragem para falar; outras vezes, é preciso coragem para não dizer nada


Às vezes, é preciso coragem para falar; outras vezes, é preciso coragem para não dizer nada

Muitas vezes, o silêncio nos protege de pessoas maldosas, de situações embaraçosas, de nós mesmos. Outras vezes, as palavras bem ditas são realmente benditas, pois protegem nossa integridade, resguardam nossa essência, fazem bem à nossa saúde.
Marcel Camargo

Talvez uma das melhores formas de nos protegermos seja o silêncio. Se bem que, em determinadas ocasiões, precisamos nos expressar para que sobrevivamos, para que não nos engulam. Ou seja, tanto as palavras bem colocadas quanto o silêncio na hora certa são igualmente essenciais em nossa jornada. Cabe a nós fazer o uso inteligente de um e de outro.
É preciso silenciar quando nos encontramos diante de alguém que não ouve, não recebe, não quer aprender; alguém que apenas expõe o que pensa de forma agressiva e com a empáfia característica daqueles que se acham donos da verdade. Pessoas que se expressam como se fossem a única fonte de saberes e de verdades desse mundo jamais conseguirão se abrir ao que o outro tem a oferecer.
É necessário falar quando nos sentimos ofendidos, quando não podemos mais conter o que desagrada, quando o outro ultrapassou os limites viáveis de uma convivência minimamente respeitosa, passando por cima de nossa dignidade. Caso não nos coloquemos no momento certo, algumas pessoas nos atropelarão com sua arrogância, seu egoísmo, suas vaidades. Além disso, engolir tudo aqui dentro nos adoece o corpo e a alma.
O silêncio nos protege de pessoas maldosas, de situações embaraçosas, de nós mesmos. Muitas vezes, aquilo que falarmos não acrescentará nada, não chegará até ninguém, não trará nada de bom, tampouco solucionará qualquer problema que esteja ocorrendo. Da mesma forma, nosso silêncio pode confortar quem esteja precisando apenas de nossa presença ali bem junto, pois calar-se junto a quem sofre traz consolo e acolhimento, entendimento do sofrimento alheio.
Por sua vez, as palavras bem ditas são realmente benditas, pois, proferidas na hora certa, protegerão nossa integridade, resguardarão nossa essência, farão bem à nossa saúde. Teremos que falar o que queremos ou não, o que aceitamos ou não, o quanto estamos tristes ou felizes, a quem precisar de nossos limites, de nossa ajuda, de nossa gratidão. Carregar contenção exagerada nos deixa solitários e tristes. Falar com quem nos entende cura e ilumina.
Tudo, na vida, requer equilíbrio, sobriedade e lucidez, pois os excessos acabam transbordando para o lado errado e não ajudando em nada. Falar nos momentos apropriados, junto a quem sabe e merece ouvir, e calar quando de nada servirá qualquer palavra que dissermos, será um dos maiores bens que poderemos fazer a nós mesmos e a quem caminha conosco. Porque poucos merecem o que temos a dizer, enquanto muitos merecem o nosso silêncio. É isso.


¹ Fundador e Autor do Blog: Eduardo Campos, Técnico em Gestão Pública: Pedagogo, Esp. em Docência do Ensino Superior – PROEJA  e Educação em Saúde. Pesquisador do Grupo de Estudo e Pesquisa em Educação do Campo na Amazônia-GEPERUAZ/UFPA
² Fonte texto : Marcel Camargo. © obvious: http://obviousmag.org/pensando_nessa_gente_da_vida/2016/as-vezes-e-preciso-coragem-para-falar-outras-vezes-e-preciso-coragem-para-nao-dizer-nada.html#ixzz4VM2i4mZQ
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terça-feira, 21 de março de 2017

Equívocos na educação dos filhos


Equívocos na educação dos filhos

A mãe é a grande responsável pela formação do caráter do filho, seguida pelo pai, como co-participante dessa grande tarefa.
Por vezes, a mãe, investida da melhor das boas intenções comete equívocos na educação, que poderão infelicitar sobremaneira o filho, a quem ama e deseja ver feliz.
Um desses equívocos é assumir a vida e os gostos da criança. É ela que adoça o café ou o suco do filho; é ela que sabe do que ele gosta ou deixa de gostar.
É a mãe que responde quando alguém pergunta à criança se ela deseja isso ou aquilo.
É ela que escolhe roupas, calçados, conforme as cores e modelos que gosta, muitas vezes abafando os desejos do filho, quando esse já tem idade para opinar.
A mãe cria o filho ou filha com se fossem mentalmente inválidos.
Embora não se duvide do amor que move essas atitudes, essas mães estão prejudicando sobremaneira a formação dos seus amores.
Isso porque a criança cresce sem se conhecer, porque a mãe é quem sabe tudo sobre ela. Na fase da adolescência, os conflitos aumentam pois agora o filho já não aceita mais ser guiado pela mãe, mas submete-se, sem critérios, ao grupo com o qual passa a conviver.
Daí, se veste como os da sua tribo, se comporta como o seu grupo estabelece, se caracteriza, enfim, como os demais. Não tem gosto próprio, pois a mãe sempre decidiu tudo por ele.
A criança, que desde cedo aprendeu a ser passiva em tudo, agora não consegue se desvencilhar dessa dependência perigosa.
Esse tipo de educação gera jovens sem opinião própria, sempre preocupados com o que os outros pensam ou dizem deles.
São jovens sem iniciativa, sem senso crítico, sem maturidade, que estão sempre esperando que alguém lhes diga o que fazer e do que devem gostar ou desgostar.
Infelizmente essas falhas na educação infelicitam em vez de formar homens e mulheres aptos para gerir as próprias vidas de forma lúcida e coerente.
É por essa razão que moças se deixam iludir por promessas mirabolantes, como as feitas pelo maníaco do parque, que acenava com a possibilidade de fazê-las famosas, fotografando-as, nuas, no meio do mato.
Se essas moças tivessem discernimento e senso crítico, certamente não aceitariam tal convite, por ser destituído de fundamento.
Importante que mães e pais pensem com carinho a respeito da grande missão que lhes cabe como educadores e formadores de caracteres.
Importante se pensar em educar os filhos para que tenham autonomia no pensar e no agir, por si mesmos, e não sejam conduzidos como marionetes, sem direito a pensar nem assumir responsabilidades.
Importante que os pais atentem para essa questão e permitam que os filhos aprendam a se conhecer desde cedo. A fazer algo que os faça sentirem-se úteis e valorizados.
Muito embora se tente combater o trabalho infantil dentro do lar, como se pequenas tarefas fossem prejudicar a infância, os pais conscientes sabem que se hoje têm os pés firmes no chão, é porque seus pais lhes colocaram responsabilidades sobre os ombros.
Você que é mãe ou pai, e ama seus filhos, pense nisso e avalie até que ponto não está tomando para si a vida deles.
E se perceber que está cometendo esse grande equívoco, não perca mais nenhum minuto. Corrija o passo e ofereça ao seu filho a bendita oportunidade de crescer.

Pense com Edu!
A educação deve promover o homem não apenas no meio social, mas prepará-lo para a vida essencial, que é realidade do ser, filho de Deus, que deve seguir, individualmente, seu caminho para a Grande Luz, que é o Criador.


¹ Fundador e Autor do Blog: Eduardo Campos, Técnico em Gestão Pública: Pedagogo, Esp. em Docência do Ensino Superior – PROEJA  e Educação em Saúde. Pesquisador do Grupo de Estudo e Pesquisa em Educação do Campo na Amazônia-GEPERUAZ/UFPA
² Fonte texto : R M E -
³ Fonte imagem : http://www.intercambio7.com.br/sims-e-naos-para-seu-intercambio.jpg

segunda-feira, 20 de março de 2017

A menina que sofria do mal de mãe!


A menina que sofria do mal de mãe!

Apesar das recomendações religiosas, morais e pedagógicas, apesar do conhecimento hoje amplamente disponível, não há pai ou mãe que não tenha sido surpreendido um dia pelo pensamento fugaz, verdadeiro, que revela um momento de negligência ou de descuido. (Paulo Schiller)

Especialistas estimam que um terço das pessoas que apresentam sintomas de transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) são crianças e adolescentes. O diagnóstico normalmente é difícil e muitas vezes só é possível quando pais ou professores observam no comportamento do paciente tendência ao perfeccionismo, isolamento e excessiva timidez. É muito comum que as crianças não reconheçam que suas atitudes são exageradas e sem sentido, ou tenham vergonha, preferindo escondê-las dos adultos. O quadro se agrava com a dificuldade dos pais em aceitar que o filho esteja com o distúrbio, por constrangimento diante dos outros. As duas mães de Mila, da escritora francesa Clara Vidal, apresenta a dolorosa história da menina que, dos 9 aos 15 anos, desenvolve rituais obsessivos como defesa para as situações de violência psíquica que enfrenta dentro de casa. O livro faz parte da coleção Estado de alerta, da editora SM, que reúne histórias sobre momentos de crise protagonizados por crianças ou adolescentes.
Leia a seguir trechos do romance e o posfácio do psicanalista Paulo Schiller, tradutor da obra.
As duas mães de Mila
“Mila tem duas mamães. Ela tem certeza disso, desde bem pequena. Desde que viu na TV um desenho animado de duas heroínas que eram gêmeas. Duas menininhas idênticas, mas que tinham personalidades muito diferentes. Uma era doce e delicada, a outra, violenta e malvada. A mãe de Mila é assim. Às vezes rosa e delicada, às vezes cinza e malvada. São com certeza duas pessoas, duas irmãs gêmeas, que dividem a educação de Mila. Ela não se pergunta se o pai sabe disso. E não discrimina qual das duas é a verdadeira mãe. Há dias em que Mila quer que a mãe verdadeira seja a rosa e delicada, pois é muito mais agradável. Mas acontece também de Mila sentir pena da cinza, malvada, raivosa, que vive chorando muito. Quando a mãe cinza diz que está infeliz e doente, Mila tem vontade de fazer tudo para consolá-la e vê-la sorrir.
É assim que Mila vive, entre as duas mães, uma rosa e outra cinza. Não é muito difícil. Quando a mãe está de bom humor, é com certeza a mãe rosa que chegou. Quando ela se transforma numa harpia1, foi a mãe cinza que tomou o seu lugar. O jeito, então, é esperar que a mãe rosa volte.”(...)
“No auge da preocupação, Mila inventa uma fórmula mágica a fim de transferir para si mesma o mal-estar da mãe: “Mamãe, dê-me a sua doença. Eu te dou a minha saúde”. Ela repete a frase mentalmente até se sentir esgotada, com a sensação de que a saúde da mãe depende dela, de que é responsável por sua cura.
Certa noite, à mesa, depois de uma crise, mamãe está servindo o jantar, ainda muito abatida. Volta-se para Mila e diz:
– Você contou pro seu pai o que me aconteceu?
O pai lança um olhar resignado para a filha. Ele compreende, uma vez mais. Socorre-a:
– Você teve de novo uma das suas indisposições, como de costume?
– Não, justamente, não como de costume. Dessa vez tive de verdade a impressão de que ia acabar. Um dia desses não vou escapar.
– Cale-se. Você sabe muito bem que isso faz mal à menina!
Mila ocupa-se em desenhar “erres” sobre a toalha com o indicador. E, ao lado de cada “r”, ela acrescenta um “s”, de “saúde”, não só para que a mãe volte a sorrir, mas também para que tenha boa saúde. De noite, ao dar as voltas pelo quarto, ela acaba acrescentando também a letra “s” aos seus encantamentos.”
A crueldade à espreita
Mila não é única. A história de Mila não é incomum como desejaríamos que fosse. Por outro lado, com certeza existem muitas mães melhores que a dela, mais suaves, amorosas e dedicadas. Com diferentes intensidades, a distância e a omissão do pai de Mila também não são raridade nas narrativas escutadas no cotidiano dos consultórios de psicanálise ou de psicoterapia. Para além das famílias mais “saudáveis”, se abre todo um espectro de relações entre pais e filhos que se estende de vínculos simbióticos, quase incestuosos, a situações em que prevalece o desprezo e, às vezes, a maldade.
É sedutor pensar que a maldade depende de um gene extraviado ou que a crueldade nasce de um desarranjo bioquímico em um grupo de células cerebrais.
É confortável nomear sob diagnósticos precisos a anorexia, a depressão e as obsessões. Além da ilusão de conhecimento e de domínio, a nomeação nos autoriza a prescrever drogas discutíveis e de valor efêmero que amortecem a busca pelas causas da melancolia, da tristeza e do mal-estar próprios da natureza humana.
A medicação irresponsável de crianças, novidade incentivada pela indústria farmacêutica, alimentada sem critérios cuidadosos pelos meios de comunicação, se vale da complacência da sociedade, que assim se livra de suas responsabilidades. Mila seria hoje rotulada por alguns como portadora, entre outros males, de um transtorno obsessivo-compulsivo, candidata ao uso da droga do momento. Entretanto, durante a leitura do livro, acompanhamos, impotentes, a lógica impiedosa da montagem que resultou em seus sintomas. Em certo sentido, Mila teve sorte. Ao final, abriu-se para ela a possibilidade de falar, de desmontar e de se libertar não dos seus genes, mas dos seus fantasmas, do seu romance familiar.
A crueldade, também própria do homem, nos espreita.
Quase sempre de longe, nas palavras e ilustrações dos livros de história, nas narrativas de tragédias em terras e tempos remotos. Dizemos, conformados, que as guerras sempre existiram, que a violência é parte da natureza humana. Algumas vezes, a crueldade emerge dos textos e das telas e aparece no presente, viva, próxima, palpável. Irrompe na vizinhança, trai ou atinge um conhecido, denuncia um parente distante, aproxima-se ameaçadora.
Pressentimos, embora de uma forma nebulosa, que a crueldade retratada nos livros de histórias nasce entre as paredes que delimitam a vida familiar.
Toda professora sabe que, para além da inocência, a intriga e a maldade permeiam as relações entre as crianças e desconfiam, acertadamente, que elas reproduzem situações domésticas. Toda babá sabe que a sexualidade nos marca desde os primeiros anos, a despeito do devaneio dos sonhadores que pretendem ver na infância um tempo apenas de alegrias e encantamentos.
Os conflitos retratados na paisagem que se mostra pela janela aberta para o mundo infelizmente demonstram que não existe nenhuma evidência de que os pais fazem, concretamente, o melhor pelos filhos. Apesar das recomendações religiosas, morais e pedagógicas, apesar do conhecimento hoje amplamente disponível, não há pai ou mãe que não tenha sido surpreendido um dia pelo pensamento fugaz, verdadeiro, que revela um momento de negligência ou de descuido. Temos, em um plano mais ou menos superficial, certa consciência das nossas faltas e transgressões. Não somos, talvez sem exceções, ilhas de santidade cercadas de maldade por todos os lados.


¹ Fundador e Autor do Blog: Eduardo Campos, Técnico em Gestão Pública: Pedagogo, Esp. em Docência do Ensino Superior – PROEJA  e Educação em Saúde. Pesquisador do Grupo de Estudo e Pesquisa em Educação do Campo na Amazônia-GEPERUAZ/UFPA
² Fonte texto : Por Paulo Schiller Revista Mentecerebro – junho 2008
³ Fonte imagem : © FrankyDeMeyer/istockphoto
Livro de Referência: (As duas mães de Mila, de Clara Vidal. Tradução de Paulo Schiller. Edições SM, 2006, 78 págs., R$ 23.00)

sexta-feira, 17 de março de 2017

Por trás de toda depressão, existe uma vontade enorme de ser feliz


Por trás de toda depressão, existe uma vontade enorme de ser feliz

Depressão não é coisa de gente “fresca”. Depressão é coisa de gente, porque todos nós estamos sujeitos a queda, a dor e ao sofrimento. A única diferença direciona-se ao modo como cada um se comporta diante da pedra no meio do caminho.
Erick Morais


De repente você não tem ânimo para nada. Não quer sair do quarto, que, a propósito está uma bagunça sem fim; não tem vontade de ver o mundo; não possui força sequer para fazer atividades que faziam/fazem parte do seu cotidiano. Você se enxerga no fundo do poço, sem qualquer recurso ou sinal que faça recuperar a esperança. A vida nesse limiar de tristeza torna-se ainda mais frágil e por que não dizer insignificante, já que afundada em uma depressão, ela perde a sua razão de ser.
A depressão não é do jeito que descrevi, ela é muito pior e o mais importante: não é coisa de gente “fresca”. Depressão é coisa de gente, porque todos nós estamos sujeitos a queda, a dor e ao sofrimento. A única diferença direciona-se ao modo como cada um se comporta diante da pedra no meio do caminho. Entretanto, julgar algo precipitadamente ou achar que uma doença tão terrível é simplesmente “frescura” é ser despido totalmente do mínimo de sensibilidade.
Bauman assevera que não há como medir a dor que alguém sente, pois: “Cada angústia fere e atormenta no seu próprio tempo”. Dessa maneira, há de se considerar que todos nós possuímos nossos monstros e que eles nos assustam de maneira distinta. Ou seja, aquilo que aflige e esmaga o meu peito não necessariamente será a mesma dor que o outro sente, de modo que cada um sofre de acordo com as suas idiossincrasias e dores únicas.
Isso implica o entendimento de que a pluralidade só existe em função da singularidade que cada um possui e, assim, por mais que o problema do outro pareça aos meus olhos algo bobo, devemos buscar compreender que cada dor tem seu tempo e lugar, pois, como diz a letra da música: “Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”. Sendo assim, deve-se ter empatia para que possamos imaginar o sofrimento que existe em relação às particularidades de cada um.
Apesar de a empatia ser fundamental para que as pessoas que estão ao redor de quem sofre de depressão possam compreendê-la e ajudá-la, é necessário que a pessoa que sofre do problema busque analisar a raiz do seu sofrimento e de que modo ela tem contribuindo para a perpetuação deste. Não estou dizendo que o indivíduo não deve chorar, ficar aflito ou angustiado em função de determinada situação, e sim, que deve, por meio de uma introspecção, tentar perceber em que momento a mágoa deixou de machucar por si só e passou a ser uma rememoração desencadeada pela própria cabeça.
Isto é, quantas vezes nós ficamos remoendo dores do passado, remexendo em feridas já cicatrizadas e fazendo-as tornar a sangrar? A depressão nunca é culpa de quem a possui, mas se martirizar por algo que não pode ser consertado não ajuda em nada, afinal, não se pode voltar no tempo e, mesmo que pudéssemos, outras coisas nos incomodariam e outras pedras existiriam, de maneira que teríamos que lidar com outros problemas, pois como é dito no filme “Questão de Tempo” – “Ninguém pode te preparar para o amor e para o medo”.
Eu sei que falar é muito mais fácil do que colocar em prática, tanto para quem tem depressão, quanto para quem está ao lado, porque lidar com o problema de modo que possa resolvê-lo depende de empatia, de perdão, de autoperdão, de resiliência, de esperança, de humor. Depende de um olhar doce para um mundo que tanto nos faz chorar, já que só assim conseguimos fazer das lágrimas uma aquarela de cores para pintar um arco-íris, uma jiboia engolindo um elefante, uma árvore que dá pipoca, um dragão que cospe sorvete (que bom seria, hein?) ou qualquer coisa que quisermos.
Quando não conseguimos ter essa doçura no olhar, a depressão torna-se um casulo que transforma borboletas em lagartas e isso é triste, porque a beleza daquelas está na sua capacidade de se transformar, demonstrando que por trás de todo casulo há uma borboleta e que de toda depressão existe uma vontade enorme de ser feliz, cabe a nós escolher o que sai do casulo.

¹ Fundador e Autor do Blog: Eduardo Campos, Técnico em Gestão Pública: Pedagogo, Esp. em Docência do Ensino Superior – PROEJA  e Educação em Saúde. Pesquisador do Grupo de Estudo e Pesquisa em Educação do Campo na Amazônia-GEPERUAZ/UFPA
² Fonte texto : Erick Morais. © obvious: http://obviousmag.org/genialmente_louco/2016/por-tras-de-toda-depressao-existe-uma-vontade-enorme-de-ser-feliz.html#ixzz4VM8qV0Ae
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quinta-feira, 16 de março de 2017

O que está por trás de um favor?


O que está por trás de um favor?

O homem ideal - afirmou Aristóteles - sente alegria em fazer favores aos outros. O que está por trás de um favor?
Talvez tenhamos, como sociedade ansiosa e inquieta que nos tornamos, atribuído um valor insignificante a ele. Por isso, cabe refletir com mais tempo sobre o tema.
Por trás de um favor, seja ele pequeno ou grande – como se diz - há um movimento fundamental: a doação.
Doação que começa pela atenção, passa pelo tempo despendido e, por vezes, chega a conteúdos maiores ainda.
Toda vez que prestamos um favor a alguém estamos, de certa forma, dizendo que naquele momento, o da ação em prol do outro, ele é mais importante do que nós.
Deixei de fazer o que estava fazendo pelo outro. Dividi meu tempo com o outro. Sacrifiquei-me, de alguma forma, pela outra pessoa.
Esta postura é das mais nobres que existe pois constitui a essência da caridade. Obviamente estamos considerando aqui o favor desinteressado, realizado pelo prazer de ajudar, de contribuir com a felicidade do outro.
Qualquer outra modalidade de favor passa a perder a essência desta ação benévola e podemos chamar de algum outro nome que não este, obedecendo à linha de razão de nossa breve análise.
Um outro detalhe que vale a pena ser analisado, no mundo dos favores, é a recompensa íntima imediata que nos trazem.
Há um sentimento - que na maioria das vezes passa rapidamente pelo nosso coração – de prazer, de alegria.
É a alegria do chamado homem ideal de Aristóteles, que percebe sua consciência identificando uma ação no bem.
O que acontece nesses momentos – ainda breves na vida da maioria de nós – é uma celebração da consciência, bem lá onde estão escritas as Leis de Deus. Ela percebe a Lei do amor sendo vivenciada com beleza e envia-nos o sentimento de satisfação, de alegria, de prazer.
Não há quem não se sinta bem fazendo o bem. E nos favores existe o bem sendo praticado em diversas nuances distintas.
Cada um tem seus deveres, responsabilidades e precisa dar conta deles, é certo. Mas, porque não posso, em alguns momentos, ajudar o outro a conseguir cumprir suas tarefas?
O sacrifício que iremos fazer – quando houver realmente sacrifício – é muito pequeno, perto da alegria de ter sido útil na vida de alguém.
Não façamos pela recompensa. Não façamos pelo reconhecimento. Façamos pelo prazer de ajudar.
Perceberemos que a vida nos retribui constantemente os favores que prestamos, pois quando estamos a fazer algo por alguém, de coração, sem segundas intenções, uma aura de paz nos envolve e nos protege.
Naquele instante somos como que missionários do amor na Terra. Somos soldados da paz, modificando o mundo, espargindo o bem pelos cantos.
Da próxima vez que você ouvir as palavras: Você me faz um favor? - pense bem antes de negar. Veja em cada pedido desses uma oportunidade de ser mais feliz.


¹ Fundador e Autor do Blog: Eduardo Campos, Técnico em Gestão Pública: Pedagogo, Esp. em Docência do Ensino Superior – PROEJA  e Educação em Saúde. Pesquisador do Grupo de Estudo e Pesquisa em Educação do Campo na Amazônia-GEPERUAZ/UFPA
² Fonte texto : R M E - Em 31.10.2016.
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Livro de Referência: livro Nossos filhos são Espíritos, Hermínio  Miranda, ed. Arte e cultura.