quinta-feira, 31 de julho de 2008





SER CRIANÇA...


Dia desses, ouvi de um pai a seguinte frase: “essas crianças de hoje parece que já vêm com chip!”. Orgulhoso, mas ao mesmo tempo indignado com a filha de 11 meses, esse papai de primeira viagem contou-nos que ela disse "não queo", em recusa à mamadeira que lhe foi oferecida! Enfim, o que há hoje em dia com esses nossos pequenos? Será que as crianças estão perdendo sua essência, queimando etapas? Mas afinal, não faz muito tempo que os bebezinhos, ao nascerem, eram envoltos em faixas que impediam seus movimentos e colocados em ambientes mais amenos para ficarem mais tranqüilos. É... os tempos são outros. E como são! Das inovações tecnológicas aos valores ventilados pela mídia, segue nossa criança a ser bombardeadas por uma explosão de estímulos externos, que muitas vezes provocam reações precoces, atitudes que parecem fugir dos parâmetros da normalidade próprios para elas. Então ficamos a perguntar: o que fazer?
Na verdade, não há respostas nem fórmulas prontas. Busquemos então os recursos da análise ao nosso alcance. É preciso entender que, primeiramente, a sociedade mudou.
Nossa cultura tem se renovado, e seu desenvolvimento se dá a ritmos nunca vistos.
As crianças, fruto desse meio, têm sido acionadas como nunca antes. "Os estímulos são tamanhos que as crianças, daqui a pouco, nascerão andando", disse outro dia uma experiente educadora, referindo-se aos bebês do berçário que ela coordena há 25 anos. Mas afinal, será que nossas crianças em breve deixarão de ser crianças? São tantas as questões que envolvem o difícil processo de educar! Mas, se para pais e educadores a questão é delicada, suscitando questionamentos e busca de linhas de ações, como será afinal para nossos pequenos heróis e heroínas? Ser criança, hoje, parece que está mesmo difícil! O fato é que percebemos uma gama enorme de crianças desorientadas e até angustiadas. Se de um lado já apresentam precocidades do ponto de vista até intelectual, do ponto de vista do equilíbrio emocional nem tanto.
Atentemos primeiramente para esse movimento de indignação e deslumbramento que muitos adultos são tomados frente aos mais inéditos comportamentos de nossos pequenos, e que seguramente têm trazido às crianças desconforto, que nem elas mesmas sabem explicar. Pais e adultos que se deslumbram com comportamentos inusitados, educadores que ficam perturbados com crianças que não mais se contentam em sentar e copiar.
Entendamos pois o seguinte: crianças querem criar, se colocar, querem jogar videogame, querem manusear o computador e mostrar suas destrezas e habilidades, que muitos de nós adultos sequer sonhamos em ter. Crianças querem falar de si e dos amigos.
Querem ter o direito a sonhar, e mais do que isso, de contar seus sonhos. Então, saibamos que muito podemos fazer por nossas crianças. Mas é preciso ter consciência de que se realmente queremos ajudá-las a ser felizes, preservando sua real condição de crianças que são, tenhamos a consciência de que podemos sim ajudá-las a alimentar seus sonhos, legitimar suas competências, acolhê-las, porém sem perdermos de vista que nós adultos somos referências indispensáveis para essas pequenas criaturas. Crianças precisam de braços que os acolham, que as aplaudam, mas que também as guiem.
Crianças precisam sentir-se crianças, independentemente de suas capacidades e habilidades de qualquer ordem. Saibamos, pois, que o arquétipo infantil existe, sobrevive e sobreviverá a todos os ataques, inclusive aos da cultura que procura massificar, erotizar e transformar nossos pequenos em adultos em miniatura. As crianças podem sim apresentar características diferentes das crianças de 10, 20, 50 até 200 anos atrás. Mas são crianças e precisam ser vistas como tal. Respeitar a criança, legitimá-la, não significa delegar a ela poderes que sua estrutura emocional não comporta. Há muitos tiranozinhos sendo hoje criados por pais que simplesmente dizem "mas eu não posso com ele". Essa é a frase que nenhuma criança deve e gosta de ouvir. Crianças gostam de adultos que digam a elas “filho, eu te respeito, mas a autoridade aqui sou eu!”. E para ser autoridade, é preciso tão pouco.
Basta olhá-la pelo prisma da mais linda condição humana: a condição de ser criança.

Fonte: Cláudia Marília Nogueira

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