domingo, 14 de fevereiro de 2016

DEIXA O MENINO BRINCAR, DEIXA A CRIANÇA SONHAR



O ritmo acelerado da vida moderna, somado ao clima de competição em busca de melhores oportunidades, nos condicionou a uma vida de prazeres furtivos e apressados. Relegamos nossa diversão ao pouco de "tempo livre" que nos resta e, infelizmente, passamos a fazer o mesmo com nossos filhos. Os pais são bem intencionados, é claro, mas isto não anula a tragédia da realidade atual: crianças ocupadas demais para brincar.
Estar "à vontade" significa "não estar sujeito às restrições do tempo". Hoje, temos até que nos planejar para ficar à vontade, já percebeu? A liberdade de seguir nosso ritmo natural tornou-se um luxo. Nossos momentos de lazer não passam de medidas paliativas para aliviar a tensão — como o banho de sol numa prisão. O ritmo da vida moderna segue acelerando. Nos negócios, criamos o estoque just-in-time, as comunicações instantâneas e as viagens bate-volta.
Os dias são cada vez mais programados, minuto a minuto, chegando até a infância, a começar pela imposição da agenda hospitalar aos recém-nascidos. Time management e multitasking, com a ajuda de smartphones e tablets, se tornaram habilidades essenciais ao lidar com o frenesi cotidiano. Buscamos manter tudo sob controle e, assim, adquirimos mais e mais soluções tecnológicas para lidar com problemas causados pelo próprio controle — irônico, não? Enquanto a vida adulta segue o ritmo cada vez mais rápido das máquinas, aquelas tardes intermináveis da infância de outrora dão lugar ao confinamento planejado das escolas e uma enxurrada de atividades extra curriculares. Pela primeira vez na história, crianças estão ocupadas demais para brincar.
"Ocupadas demais para brincar" — por favor, reflita sobre a tragédia dessa afirmação. Novamente, as causas têm origem na  ansiedade pela sobrevivência. Brincar é um luxo, uma futilidade relegada aos intervalos da programação de atividades produtivas, educacionais e de desenvolvimento. As exigências competitivas da vida adulta determinam que não se pode perder tempo com brincadeiras, pois cada momento brincando é um momento no qual seu filho poderia estar se qualificando, se preparando para o futuro. Afinal, as brincadeiras da fase adulta são limitadas ao nosso "tempo livre", e a infância é uma preparação pra fase adulta, certo? Então procuramos difundir bons "hábitos de estudo" e uma forte ética de trabalho em nossos filhos, além de um senso de responsabilidade para que não coloquem as brincadeiras, o prazer e a diversão em primeiro lugar. Caso contrário, que tipo de adulto poderiam se tornar? Provavelmente, um adulto indisciplinado que não consegue manter um emprego das 8h as 17h, sem paciência para trabalhos entediantes, degradantes e desagradáveis — exatamente o tipo de trabalho que boa parte da população aceita, infelizmente, por necessidade.
Portanto a escola vem primeiro, depois a lição de casa, então as aulas de inglês e, finalmente, a escolinha de futebol ou o ballet. Só então, se ainda sobrar algum tempo, eles podem brincar.
Obrigar crianças pequenas, ainda espontâneas e curiosas, a respeitar uma agenda adulta requer apenas uma coisa: força — mas não se engane, as crianças resistem à programação. Quando querem fazer algo, o querem imediatamente, e por quanto tempo julgarem necessário. Se não estivéssemos sempre com pressa, nunca perderíamos a paciência.
Quando abandonamos esse impulso de controlar o tempo, raramente perdemos a paciência com crianças ou idosos, não por nos tornarmos "santos", mas simplesmente porque não há mais motivo. Então deixe que tomem quanto tempo quiserem. Afinal, por que não deixaríamos? Só se estivéssemos apressados, como de costume na sociedade atual. Estamos sempre pensando no próximo item da lista de tarefas, constantemente nos privando de aproveitar plenamente o que estamos fazendo, aqui e agora. As constantes interrupções no ritmo natural das brincadeiras infantis, agora relegadas aos intervalos de uma agenda imposta, nos condicionam a uma vida adulta de prazeres furtivos e apressados.
A glorificação da "correria" e da "agenda lotada", tão endêmica na vida moderna, é apenas uma de suas características, e certamente não será abolida pela próxima geração de aparelhos inteligentes. Estar ocupado é não estar livre, é ter o seu tempo limitado, é estar sujeito às urgências sem fim do cotidiano. É o resultado natural da aculturação da infância, que sufoca nossa vida com ameaças onipresentes de privação — seja de afeto, de aprovação ou conforto. A vida adulta nos deixa profundamente condicionados contra a diversão.
Ao dizer que estamos "ocupados demais", o que realmente queremos dizer? Que precisamos fazer outras coisas, seguindo prioridades ditadas pela sobrevivência, ou ainda, que não temos a liberdade de fazer o que queremos. Repetimos cegamente, quase sem perceber: "Não se deve colocar a diversão antes do trabalho". Qualquer inversão nessa ordem já é capaz de gerar uma certa insegurança, um leve receio de perder o emprego, ir à falência ou terminar no olho da rua. A ideia de que a diversão também pode ser produtiva, sem ter que direcioná-la conscientemente à produtividade, raramente nos ocorre; se o faz, logo relegamos ao reino daqueles poucos felizardos, artistas ou gênios que têm a sorte de fazer o que amam. Na verdade, a lógica está invertida: genialidade é o resultado de se fazer o que ama, não um pré-requisito. O problema, claro, é descobrir o que se ama. É pra isso que deveria servir a infância, mas a nossa cultura tem distorcido esse propósito.
Quando nos sentimos tão perdidos a ponto de não descobrir o que amamos, a única saída é deixar de fazer o que não amamos: simplesmente não fazer "nada" por um tempo. Na bíblia, a uma mensagem implícita na história do Grande Êxodo. Após a escravidão, os filhos de Israel tiveram que vagar por 40 anos no deserto antes de encontrar a terra prometida. Analogamente, precisamos derrubar a "ditadura da correria" e nos permitir vagar por algum tempo para, enfim, encontrar nosso propósito — é o que alguns chamam de "período sabático".
A maior ironia, e o mais grave indício de escravidão, é a nossa aversão a longos períodos de tempo livre. O verdadeiro escravo é condicionado a temer a liberdade. Assim, preenchemos nosso tempo livre com "passatempos", numa busca constante por "entretenimento". A ansiedade que permeia tanto da vida moderna, agora também invade nossos momentos de lazer, nos confinando a uma lista interminável de tarefas até mesmo nas férias.
  
Quero um mundo onde adultos, outrora crianças, possam viver plenamente — sonhando e brincando.


¹ Fundador e Autor do Blog: Eduardo Campos, Técnico em Gestão Pública: Pedagogo, Esp. em Docência do Ensino Superior – PROEJA  e Educação em Saúde. Pesquisador do Grupo de Estudo e Pesquisa em Educação do Campo na Amazônia-GEPERUAZ/UFPA
² Fonte texto : R M E -  Bruno Braz http://obviousmag.org/introspeccao_exposta/2015/07/deixa-o-menino-brincar-deixa-a-crianca-sonhar.html#ixzz3xbDEQSiq

³ Fonte imagem : http://www.intercambio7.com.br/sims-e-naos-para-seu-intercambio.jpg

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