domingo, 9 de agosto de 2015

Do Filho para o Pai ou do Pai para o filho?


Hoje eu abri um livro. Não sei exatamente porque, dentre tantos de minha biblioteca, escolhi aquele.
Quando o abri, na primeira página, havia um desenho e o seu nome.
Recordei-me do dia em que comprei a obra. Era um lançamento e muito caro. A capa encadernada, folhas de papel de primeiríssima qualidade, um autor famoso. Coloquei-o sobre a mesa da biblioteca, para ler um pouco mais tarde.
Lembro-me que, quando descobri que você escrevera ali o seu nome, o chamei. Eu estava muito zangado.
O livro era meu e você escrevera seu nome nele e fizera um desenho. Chamei-o para lhe dar uma grande bronca.
Você veio sorrindo e, antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, vendo que eu segurava o livro em minhas mãos, me disse:
- E aí, papai, gostou do coração que eu desenhei no seu livro? É o meu coração, papai... Para você. E também coloquei meu autógrafo. Como os artistas fazem. Gostou, papai? Você pulou no meu pescoço, beijando-me.
Pois é, naquele dia não houve bronca. Como poderia? Eu estava preocupado com um livro que comprara e era precioso. Mas o meu bem mais precioso, você, tinha colocado nele a sua marca. Não por maldade, ou por desejar estragá-lo, mas para me dar um presente.
Hoje, tantos anos passados, quando você já constituiu sua família e está distante, ao abrir o livro, tudo aquilo brotou dos arquivos da memória.
Passei os dedos sobre aquelas garatujas que pretendiam ser um desenho do seu coração e seu nome. Você mal havia aprendido a escrever seu nome, em letras grandes.
Você está longe, há tempos não nos falamos.
A vida é tão estranha.
Quantas vezes lhe disse para ficar quieto porque eu desejava ter um pouco de silêncio?
Sabe, meu filho, daria tudo que tenho para ouvir sua voz, hoje, em minha velhice, aqui, na sala em que me encontro.
Ter o seu abraço, outra vez.
Não sei quando tornaremos a nos ver.
Seu trabalho o mantém muito distante de mim.
Mas, saiba filho, foi muito bom encontrar seu nome e seu coração grafados em meu livro.
Fez-me muito bem à alma relembrar tudo isso. E fico feliz em não lhe ter dado a bronca, naquele dia. Você me deu um grande presente. Deu o que você tinha de melhor: o seu afeto grafado.
Sinceramente desejo que seus filhos façam o mesmo com você. Porque chegará sempre o dia em que, distantes, você ansiará por vê-los, por tê-los a seu lado.
Sinceramente espero que encontre escritos, bilhetes, desenhos em cada folha de seus livros, na capa de um CD. Obrigado, meu filho! Obrigado meu Pai!

 Belém-Pa, dia 09 de Agosto/2015 08:27h.

Eduardo Campos Bechara



Um comentário:

Walber Bichara disse...

Eduardo, meu filho, fiquei sensibilizado com a grandeza de suas palavras.Tenho a convicção que tu és para mim um aprendizado. Tenho orgulho e me sinto orgulhoso por isso, porque sempre te coloco em minhas orações. São fantásticas suas palavras, sua forma de escrever, sua idiossincrasia, me faz refletir como o teu coração tem muito haver comigo, teus gestos, tua capacidade de se expressar, tua grandeza de espírito. Por isso tua vida para mim é um aprendizado contínuo. Lembra quanto te falei a respeito do meu livro? O título é: ARTE DA GENTILEZA - FAÇA DA GENTILEZA UM HÁBITO - CULTURA DE EXCELÊNCIA...o conteúdo expressa a forma como te vejo, como te sinto, como convivemos, apesar da distancia. Às vezes me pergunto e pego indagando, como gostaria da tua presença perto de nós, para nossa felicidade ser completa. Que Nossa Senhora te cubra com seu manto sagrado e que dê bastante saúde, paz e felicidade. Beijos de todos de casa . Do teu Pai.Walber Bichara.