quarta-feira, 4 de novembro de 2015

EU VEJO VOCÊ. TOMA AQUI UMA FLOR. SIGAMOS JUNTOS.



Havia uma estátua na Harvard Square, em Cambridge. Vestida de noiva, rosto todo pintado de branco, um buquê de flores pequeninas e frescas nas mãos, chamava a atenção, como era de se esperar. As pessoas paravam para admirar e, de repente, tinham os seus olhos alcançados pelos dela, numa conexão clara, íntima e única. Ela, Amanda Palmer, um ícone indie que na época ganhava a vida como estátua viva. O outro, apenas um desconhecido com toda a sua múltipla complexidade. Amanda fazia um gracejo, expressando a sua performance e entregava ao outro uma das suas flores. Mas não só. Ao olhar o outro nos olhos, Amanda entregava também um pouco de si e – mesmo muda – dizia a desconhecidos jovens, velhos, pobres, ricos, humanos: EU VEJO VOCÊ. E essa era a sua arte. ISEEU


E eu, enquanto profissional das áreas de educação e saúde e da área de desenvolvimento humano, quando soube dessa história, fiquei me perguntando:
Quantos alunos um professor enxerga na sua sala de aula cheia?
Quantos pacientes um enfermeiro enxerga no hospital cheio?
Quantos olhos brilhantes e curiosos ainda somos capazes de enxergar enquanto fazemos uma palestra?
Quantas perguntas mudas estamos dispostos a responder?
Quantas conexões somos ainda capazes de estabelecer?
Nós, tão sobrecarregados de nós mesmos. Nós, tão engolidos por um sistema que renegamos. Nós, por vezes tão multiplicadores daquilo mesmo que criticamos. Afinal de contas, hoje 90% da minha rede social é Maju (a apresentadora de TV negra que foi alvo de comentários racistas), que é profissional competente, carismática, tem boa aparência e educação o bastante para sair das ofensas que recebeu ainda mais fortalecida. Mas apenas 1% dessa mesma rede é Samuel, que não é anjo, é negro, mora nas ruas, veste farrapos, têm olhos remelentos, cheira cola e vez por outra te lança um olhar cheio da revolta e da amargura que só uma criança que vive nas condições que ele vive pode lançar a alguém.
Você conhece esse olhar? Se não, é porque você não vê Samuel, que também é alvo de comentários racistas e carrega o peso da própria existência, passando pela vida assim: sem ser visto. Quantos cruzaram o seu caminho hoje? E ontem? E sempre? A estátua vê Samuel. E ela o enxerga por uma simples razão: a humanidade que há nela, reconhece Samuel na sua humanidade. Não seria esse um caminho para nos aproximarmos da Educação que defendemos?
Acredito que sim e, digo:
Eu vejo você, que tem tantos potenciais ainda não descobertos, tantas possibilidades nunca testadas, tanta beleza e bondade para entregar ao mundo.
Eu vejo você, que não consegue mais encontrar estímulo o suficiente para lutar pelo que acredita.
Eu vejo você, criança, descobrindo o mundo e pedindo apenas um ambiente seguro e livre para descobrir e expressar a sua individualidade.
Eu vejo você, pessoa única que é e com tanto de si para ainda ser visto, revisto e significado.

Durante o tempo em que esteve como estátua viva, Amanda diz que entendeu que existe uma confiança implícita entre quem apresenta sua arte e aquele que deseja retribuir por ela. Que sejamos todos, então, entregadores e receptores dessa arte que é ver o outro na sua integralidade e nos permitirmos também ser vistos. E que movimentemos bastante confiança para isso. Confiança no outro e em nós mesmos. Confiança no Universo. Confiança que nossas ações podem, sim, transformar realidades. Por um mundo com menos estátuas de pedra: presas e estáticas nos seus preconceitos, nos seus medos, na angústia e no discurso vazio que nada produz.


Fonte: Varanda de ideias  Amanda Palmer

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